Quando o incômodo se transforma em queixa

Kierkegaard encontrou em uma figura profundamente humana. Jó sofre, questiona, lamenta e procura respostas. Ele não transforma sua fé em silêncio diante da dor.

Isso nos lembra que falar sobre o sofrimento não é fraqueza. Às vezes, colocar a dor em palavras é justamente o começo de sua elaboração.

Mas existe uma diferença entre expressar uma dor e fazer da queixa uma forma de existir.

Nem todo incômodo é sofrimento. Ser contrariado, esperar, receber uma crítica ou não conseguir aquilo que desejamos pode nos frustrar, mas não significa necessariamente que estamos sofrendo profundamente.

A psicanálise nos ajuda a formular uma pergunta interessante: que lugar essa queixa ocupa na vida de alguém?

Pode ser um pedido de ajuda. Pode ser uma necessidade de reconhecimento. Pode ser uma ferida procurando palavras. Mas também pode se tornar um hábito que mantém a pessoa presa àquilo que aconteceu.

Não se trata de culpar quem sofre. Existem dores que não escolhemos. A questão é outra:

O que fazemos com aquilo que nos aconteceu?

Talvez amadurecer não seja aprender a sofrer em silêncio, mas aprender a não transformar o sofrimento na totalidade de quem somos.

Podemos carregar uma dor sem nos transformarmos nela.

E talvez seja justamente aí que Jó continue nos ensinando alguma coisa: podemos perguntar, lamentar e até não compreender, sem deixar que a dor tenha a última palavra.

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