A luz para quem está se afogando

Lançada em 1989, a canção de Herbert Vianna carrega, já no título, uma história que pouca gente conhece. A expressão vem de Jubiabá, romance de Jorge Amado publicado em 1935. No universo do livro, a Lanterna dos Afogados é um bar próximo ao cais de Salvador, frequentado por homens e mulheres que vivem à margem, entre o trabalho, a noite, a solidão e a espera.

Herbert Vianna encontrou ali uma imagem poderosa.

Aquele lugar poderia ser muito mais do que um bar.

Poderia ser uma metáfora.

Porque há momentos em que todos nós somos, de alguma maneira, afogados.

Não necessariamente pela água. Às vezes, pela ausência. Pela angústia. Pelaquilo que não conseguimos dizer. Pela sensação de estar cercado de pessoas e, ainda assim, absolutamente sozinho.

É nesse ponto que a música se torna maior do que sua própria história.

Uma lanterna não tira ninguém do mar.

Ela apenas ilumina o caminho.

E talvez seja justamente isso que torna a imagem tão bonita. A salvação nem sempre começa com uma resposta. Às vezes começa com uma pequena luz acesa no lugar certo.

Há alguém no cais.

Alguém que espera.

Na perspectiva da psicanálise, essa imagem pode produzir uma associação ainda mais interessante. O sofrimento psíquico frequentemente se torna insuportável quando não encontra lugar na palavra. Quando aquilo que nos acontece permanece sem endereço, sem escuta, sem um outro diante de quem possa ser dito.

Talvez a lanterna seja justamente isso: a presença de um outro que não elimina o sofrimento, mas impede que o sofrimento permaneça completamente sem testemunha.

Não é uma promessa de que tudo ficará bem.

É algo mais discreto:

há uma luz acesa.

E isso pode fazer diferença para quem está no escuro.

Jorge Amado criou a Lanterna dos Afogados dentro da literatura. Herbert Vianna a transformou em música. E, décadas depois, a imagem continua nos encontrando porque a experiência que ela representa permanece profundamente humana.

Todos conhecemos alguém que já esteve à deriva.

Talvez, em algum momento, tenhamos sido nós.

E talvez a pergunta mais bonita não seja apenas:

“Quem vai me salvar?”

Mas:

“Para quem posso acender uma luz?”

Porque, às vezes, cuidar de alguém não significa saber como tirá-lo do mar.

Significa simplesmente permanecer no cais.

Com a lanterna acesa.

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