“A vida só pode ser entendida olhando-se para trás, mas deve ser vivida olhando-se para a frente.”
— Søren Kierkegaard
Existe uma espécie de paradoxo nessa frase.
Para compreender quem somos, precisamos olhar para trás. Para viver, entretanto, precisamos olhar para frente.
O passado possui uma característica que o presente não tem: ele já pode ser interpretado. Quando retornamos às experiências que vivemos, conseguimos perceber relações que antes não enxergávamos. Algumas escolhas passam a fazer sentido. Certos encontros revelam sua importância. Algumas perdas deixam de ser apenas acontecimentos dolorosos e começam, lentamente, a ocupar um lugar dentro da nossa história.
Mas compreender o passado não significa ficar preso a ele.
Existe uma diferença entre reconhecer a própria história e ser condenado por ela.
Podemos dizer: “isso aconteceu comigo”. Mas precisamos ter cuidado quando transformamos essa frase em: “por isso, minha vida será sempre assim”.
O passado explica muitas coisas, mas não possui necessariamente a última palavra.
Talvez seja por isso que a frase de Kierkegaard contenha uma orientação tão importante: devemos olhar para trás para compreender, mas para frente para viver.
Olhar apenas para trás pode transformar a existência em uma tentativa interminável de encontrar explicações. Podemos passar tanto tempo procurando as causas que esquecemos que ainda precisamos fazer escolhas.
Por outro lado, olhar apenas para frente também pode ser uma forma de fuga. Quem não consegue escutar o próprio passado pode acabar repetindo, no futuro, aquilo que não conseguiu elaborar.
É nesse intervalo que a psicanálise encontra uma de suas questões fundamentais.
Não se trata simplesmente de descobrir “por que sou assim?”. Trata-se também de perguntar: o que farei com aquilo que descobri sobre mim?
Porque conhecer a própria história não é suficiente.
É possível compreender perfeitamente determinados padrões e continuar repetindo-os.
A elaboração começa quando aquilo que foi vivido deixa de ser apenas uma explicação e passa a produzir uma nova possibilidade de escolha.
O passado não pode ser modificado. Mas a relação que estabelecemos com ele pode se transformar.
Talvez amadurecer seja justamente aprender esse movimento:
voltar para compreender, mas não para morar.
Olhar para trás sem deixar de caminhar.
Reconhecer aquilo que fomos sem acreditar que estamos obrigados a continuar sendo.
Porque a vida, apesar de tudo o que já aconteceu, ainda não terminou.
E talvez seja justamente por isso que ela continua sendo nossa.

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