Começamos assinando livros para receber em casa.

Depois vieram as refeições prontas, entregues sem precisarmos cozinhar. A compra do mês passou a chegar por assinatura, antes mesmo de percebermos que os produtos estavam acabando.

E, mais recentemente, até serviços que antes dependiam de uma relação pessoal começaram a entrar nesse modelo. No Brasil, há algum tempo, a assinatura de barbearia também começou a ganhar espaço.

Tudo ficou mais fácil.

Mais rápido.

Mais conveniente.

E talvez esse seja justamente o problema.

A cada dia, criamos novas formas de fazer tudo sem precisar sair de casa, sem esperar, sem conversar, sem conhecer ninguém.

Não é apenas sobre ficar cada vez mais fixado no celular. É sobre uma transformação mais profunda na maneira como nos relacionamos com o mundo.

Antes, ir à padaria era muito mais do que comprar pão.

Você conhecia o padeiro pelo nome.

Ele sabia qual pão você gostava.

Talvez perguntasse pelos seus filhos.

Você encontrava o vizinho na fila.

Trocava algumas palavras com alguém que nem conhecia direito.

Eram interações pequenas, aparentemente insignificantes, mas que ajudavam a construir uma sensação de pertencimento.

Hoje, muitas vezes, podemos resolver tudo em poucos cliques.

Pedimos comida sem falar com ninguém.

Compramos sem entrar em uma loja.

Trabalhamos sem encontrar nossos colegas.

Nos divertimos sem estar perto de outras pessoas.

E até serviços que costumavam depender de proximidade e conversa começam a funcionar como uma mensalidade: você paga e simplesmente utiliza.

Estamos construindo um mundo extremamente eficiente.

Mas será que estamos construindo um mundo mais humano?

Talvez o mais curioso seja que estamos nos isolando não necessariamente porque queremos ficar sozinhos, mas porque estamos ficando cada vez menos dependentes uns dos outros.

E existe uma diferença enorme entre não precisar de ninguém e não ter ninguém.

Talvez a grande perda não esteja no que a tecnologia fez com o nosso tempo, mas no que ela está fazendo com os nossos encontros.

Porque a vida também acontece nessas pequenas conversas que não estavam previstas.

No café tomado no balcão.

Na padaria onde alguém sabe seu nome.

No barbeiro que pergunta como foi sua semana.

No vizinho que você encontra na rua.

Naquele papo de cinco minutos que não resolve nenhum problema, não gera dinheiro e não aumenta sua produtividade, mas faz você lembrar que existe um mundo fora da tela.

Convenhamos: criamos inteligência artificial, compras por assinatura, entregas em minutos e aplicativos para praticamente tudo.

Talvez esteja na hora de não esquecer uma tecnologia muito mais antiga e muito mais importante:

a conversa.

Porque talvez o futuro não seja sobre conseguir fazer tudo sozinho.

Talvez seja sobre continuar escolhendo, de vez em quando, fazer algumas coisas junto.

Deixe um comentário