Há situações aparentemente pequenas que dizem muito sobre a maneira como estamos vivendo. Um “bom dia” ignorado pode parecer apenas um detalhe da rotina, mas é justamente a partir desses pequenos gestos que percebemos mudanças mais profundas no comportamento, na atenção e na convivência entre as pessoas.

Na coluna publicada na Folha de S.Paulo, Rubens Paiva parte de uma experiência cotidiana para refletir sobre uma geração que, segundo ele, parece ter perdido alguns códigos básicos de educação. O texto provoca ao mencionar jovens que não cumprimentam, pessoas permanentemente conectadas aos fones de ouvido e indivíduos tão absorvidos pelas telas e pelas redes sociais que parecem viver em uma realidade paralela.

Mais do que uma reclamação sobre boas maneiras, porém, a coluna levanta uma questão incômoda: o que aconteceu com a nossa capacidade de perceber o outro?

O “bom dia” não é apenas uma fórmula de educação. Ele representa um reconhecimento. Quando cumprimentamos alguém, estamos dizendo, mesmo que por poucos segundos, que percebemos sua presença. É um gesto simples de convivência, uma pequena ponte entre desconhecidos, colegas, vizinhos e até pessoas que nunca mais veremos.

O problema é que essa atenção ao outro parece cada vez mais disputada por um mundo construído para capturar nossa atenção o tempo inteiro. Celulares, notificações, vídeos curtos, redes sociais e fones de ouvido criam uma espécie de bolha permanente. Estamos fisicamente próximos, mas muitas vezes emocionalmente distantes.

A pandemia também deixou marcas nesse processo. O período de isolamento social alterou hábitos, relações e formas de interação. Para muitos, o contato cotidiano com outras pessoas foi substituído por telas durante meses. Recuperar alguns comportamentos sociais pode não ser tão automático quanto parece. E talvez seja simplista colocar toda a responsabilidade sobre os jovens.

Há, inclusive, um ponto importante a ser acrescentado à provocação de Rubens Paiva: não é justo transformar uma geração inteira em sinônimo de má educação. Jovens não inventaram a distração digital, nem são os únicos que atravessam uma rua olhando para o celular ou entram em um elevador sem sequer perceber quem está ao lado. Adultos também vivem conectados, também ignoram cumprimentos e também demonstram, diariamente, dificuldades para escutar e prestar atenção.

Por isso, a questão talvez seja menos sobre uma “geração de mal-educados” e mais sobre uma sociedade que está desaprendendo a conviver com a presença real das outras pessoas.

O interessante na coluna é justamente provocar esse incômodo. Porque talvez o “bom dia” que não recebemos diga menos sobre quem nos ignorou e mais sobre o tipo de mundo que estamos construindo. Um mundo no qual temos acesso a milhares de pessoas pela internet, mas pouco tempo ou disposição para olhar para quem está ao nosso lado.

Recuperar a educação cotidiana não exige grandes discursos. Às vezes começa com algo muito simples: tirar os fones por alguns minutos, levantar os olhos da tela, ouvir quem está falando e cumprimentar quem encontramos.

Pode parecer pouco. Mas civilidade sempre foi feita dessas pequenas coisas.

No fim, a provocação de Rubens Paiva permanece porque toca em algo que todos reconhecemos, ainda que nem sempre admitamos. Talvez o verdadeiro problema não seja apenas que algumas pessoas deixaram de dizer “bom dia”. Talvez estejamos cada vez menos dispostos a enxergar umas às outras.

E, convenhamos, para uma espécie que passou milhares de anos tentando criar formas de comunicação, seria uma ironia bastante humana terminar a história inteira conversando com uma tela e ignorando quem está ao lado.

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