Indicação de filme – Nise: quando cuidar também é escutar

Há filmes que contam uma história. Outros nos fazem repensar aquilo que julgávamos saber. Nise: O Coração da Loucura (2015), dirigido por Roberto Berliner, pertence à segunda categoria.

O filme acompanha Nise da Silveira, psiquiatra brasileira que, ao retornar ao trabalho no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, encontra um ambiente marcado pelos métodos tradicionais de tratamento da época. Em vez de aceitar a violência e o isolamento como respostas para o sofrimento psíquico, Nise abre espaço para algo aparentemente simples, mas profundamente revolucionário: a expressão.

Pintura, desenho, modelagem, animais, convivência. Aquilo que poderia ser visto apenas como atividade ocupacional passa a revelar um mundo interno que dificilmente encontrava palavras.

É justamente aí que o filme se torna especialmente interessante para quem pensa a partir da psicanálise. Nem tudo aquilo que não pode ser dito deixa de comunicar. Às vezes, o sujeito fala por imagens, gestos, silêncios, repetições e produções aparentemente sem sentido. Escutar não significa apenas ouvir palavras. Significa estar diante do outro sem exigir que ele se apresente imediatamente dentro das categorias que já conhecemos.

Nise também nos lembra de algo que a história da psiquiatria frequentemente revela: os métodos de tratamento não são neutros. Eles carregam uma determinada compreensão sobre o ser humano. Quando mudamos a maneira de olhar para alguém, podemos também transformar aquilo que conseguimos enxergar.

O filme não precisa ser tomado como uma representação documental perfeita da trajetória de Nise da Silveira. É uma obra cinematográfica, com suas escolhas, condensações e liberdades narrativas. Mas consegue recuperar algo essencial de sua experiência: a defesa de uma prática em que o paciente não seja reduzido à sua doença.

Talvez seja essa a pergunta que permanece depois dos créditos:

o que acontece quando deixamos de perguntar apenas “qual é o problema?” e começamos a perguntar “o que essa pessoa está tentando dizer?”

Às vezes, o cuidado começa exatamente aí.

Referência principal: BERLINER, Roberto (dir.). Nise: O Coração da Loucura. Brasil: WMix Distribuidora, 2015.

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