Quem frequenta TikTok ou Instagram provavelmente já esbarrou em expressões como “farmar aura” ou na estética conhecida como “Six Seven”. À primeira vista, parece só mais uma moda da internet. Mas, olhando um pouco além dos memes, dá para perceber que existe uma lógica social bem interessante por trás disso.
A expressão “farmar” veio dos videogames. Quem joga sabe que “farmar” significa repetir ações para ganhar experiência, dinheiro ou algum recurso. Nas redes sociais, a lógica foi adaptada: em vez de acumular pontos, as pessoas tentam acumular algo muito mais abstrato, a tal “aura”.
Mas o que seria essa aura?
Não existe uma definição objetiva. Aura é aquela impressão de que alguém é naturalmente interessante, confiante, misterioso ou carismático. É a pessoa que parece ter presença, mesmo sem fazer muito esforço. O curioso é que essa impressão, que deveria surgir espontaneamente, passou a ser construída de forma quase estratégica.
É aí que entra a ideia de “farmar aura”.
Falar pouco, manter uma expressão séria, parecer indiferente, agir como se não estivesse buscando aprovação. Esses comportamentos acabam funcionando como sinais sociais. A mensagem transmitida é simples: “eu não preciso chamar atenção porque já tenho valor”.
Esse fenômeno não nasceu com a internet. O sociólogo Erving Goffman já dizia, nos anos 1950, que todos nós administramos a imagem que mostramos aos outros. Em cada ambiente, fazemos uma espécie de apresentação de quem somos. A diferença é que as redes sociais transformaram essa apresentação em algo permanente. Hoje existe uma plateia disponível 24 horas por dia.
Pierre Bourdieu também ajuda a entender essa lógica. Para ele, além do dinheiro, existe outro tipo de riqueza: o capital simbólico, que é o prestígio, a reputação e o reconhecimento. Nas redes, esse capital aparece em forma de seguidores, curtidas, compartilhamentos e, agora, da famosa “aura”.
A estética “Six Seven” segue uma lógica parecida. Não é apenas um jeito de vestir ou de falar. É um conjunto de códigos que identifica quem pertence àquela comunidade. Toda geração cria seus próprios símbolos. Antes eram os emos, os punks ou os hipsters. Hoje, os algoritmos aceleram esse processo e ajudam a formar novas tribos digitais muito mais rapidamente.
Existe ainda um detalhe curioso. Quanto mais alguém tenta parecer naturalmente autêntico, mais essa autenticidade passa a ser planejada. O vídeo parece espontâneo, mas houve dezenas de gravações. O olhar parece casual, mas foi pensado. A roupa parece despretensiosa, mas foi escolhida exatamente para transmitir aquela imagem.
No fim das contas, “farmar aura” talvez seja a melhor tradução da nossa época. Vivemos em uma sociedade em que personalidade também virou desempenho. Não basta ser interessante; é preciso comunicar isso de maneira que o algoritmo entregue seu conteúdo e que outras pessoas reconheçam sua identidade em poucos segundos.
Pode parecer apenas uma brincadeira de internet, mas ela revela algo maior: as redes sociais transformaram características subjetivas, como carisma e autenticidade, em recursos que podem ser “otimizados”, quase como se fossem pontos de um jogo. A ironia é que, quanto mais tentamos fabricar uma aura, mais ela deixa de ser exatamente aquilo que a tornou desejável: algo que parecia acontecer sem esforço.
Referências
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.
GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 2014.
HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis: Vozes, 2018.
MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.
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