É Assim que Acaba: quando o amor encontra o trauma

Poucos filmes recentes provocaram tantas discussões sobre relacionamentos abusivos quanto É Assim que Acaba (It Ends with Us, 2024), dirigido por Justin Baldoni e baseado no best-seller de Colleen Hoover. Embora a obra tenha sido amplamente divulgada como uma história de amor, sua força narrativa talvez resida justamente em outro lugar: na forma como expõe os efeitos silenciosos do trauma infantil e os mecanismos inconscientes que influenciam nossas escolhas afetivas.

A protagonista, Lily Bloom, cresce observando a mãe ser vítima de violência doméstica. Desde cedo, promete a si mesma que jamais aceitará viver algo semelhante. Contudo, a vida adulta revela uma verdade desconfortável: nem sempre aquilo que rejeitamos conscientemente deixa de habitar nosso mundo psíquico.

A psicanálise oferece uma chave de leitura particularmente interessante para compreender essa dinâmica. Sigmund Freud observou que experiências traumáticas não desaparecem simplesmente porque desejamos esquecê-las. Muitas vezes, elas permanecem ativas no inconsciente, reaparecendo de maneiras inesperadas em nossas relações, decisões e conflitos emocionais.

Nesse sentido, a trajetória de Lily pode ser compreendida à luz do conceito freudiano de compulsão à repetição. Desenvolvido em Além do princípio do prazer (1920), o conceito descreve a tendência humana de reviver situações emocionalmente marcantes, inclusive dolorosas, como uma tentativa inconsciente de elaborar aquilo que ainda não foi simbolizado. Não se trata de uma escolha deliberada pelo sofrimento, mas de um movimento psíquico complexo no qual o sujeito retorna, repetidamente, a cenários que lhe são familiares.

É justamente aí que o filme encontra sua maior potência. Lily não escolhe conscientemente a violência. Pelo contrário, ela a rejeita. Entretanto, quando se envolve com Ryle, um homem inicialmente carismático, afetuoso e bem-sucedido, acaba confrontada com comportamentos que evocam aspectos da história que acreditava ter deixado para trás.

A narrativa evita simplificações moralistas. Ryle não é apresentado como um vilão unidimensional, mas como alguém atravessado por seus próprios conflitos e feridas psíquicas. Essa escolha narrativa é relevante porque aproxima a discussão da realidade: relações abusivas raramente se apresentam de forma evidente desde o início. Frequentemente, surgem em contextos permeados por afeto, desejo, idealização e esperança.

Ao mesmo tempo, o filme também apresenta algumas limitações. Em determinados momentos, a adaptação parece suavizar a gravidade psicológica da violência ao investir excessivamente em uma estética romântica. Essa opção pode gerar certa ambiguidade na recepção do público, especialmente quando o tema central exige um tratamento mais incisivo e menos romantizado.

Ainda assim, a obra alcança um mérito importante: mostrar que compreender as origens de um comportamento não significa justificá-lo. A psicanálise jamais propôs que o trauma absolve o sujeito de sua responsabilidade. Entender não é desculpar. Compreender os mecanismos inconscientes envolvidos em uma relação abusiva não elimina a necessidade de interromper a violência.

Talvez o momento mais significativo do filme seja justamente quando Lily decide romper o ciclo. Sob uma perspectiva psicanalítica, esse gesto representa mais do que uma simples decisão racional. Trata-se de um movimento de elaboração. Pela primeira vez, ela deixa de ocupar a posição de quem apenas repete uma história herdada e passa a construir uma narrativa própria.

Essa é, em última análise, a principal contribuição de É Assim que Acaba. O filme nos lembra que o passado exerce influência sobre nossas vidas, mas não precisa determinar nosso destino. Somos atravessados por nossa história, por nossos traumas e por nossas memórias. Entretanto, existe sempre a possibilidade de reconhecer esses condicionamentos e escolher um caminho diferente.

Freud talvez observasse que ninguém escapa completamente do inconsciente. E ele provavelmente teria razão. Mas a história de Lily sugere algo igualmente importante: embora não possamos mudar o que aconteceu conosco, podemos transformar o que fazemos com aquilo que nos aconteceu.

Referências

BALDONI, Justin (dir.). É Assim que Acaba (It Ends with Us). Estados Unidos: Columbia Pictures, 2024. Filme.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar. In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 10. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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