Há músicas que pertencem ao tempo em que foram lançadas; “Inútil”, do Ultraje a Rigor, pertence também ao tempo que insiste em voltar. Escrita em 1982, gravada em 1983 e depois incluída no álbum Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985), a canção nasceu como sátira e acabou atravessando décadas como uma espécie de diagnóstico incômodo do país. O verso mais lembrado — “a gente não sabemos escolher presidente” — não envelheceu porque a ferida que ele aponta continua aberta.

O que torna a música tão poderosa não é apenas a ironia, mas o modo como ela transforma erro de linguagem em crítica social. Roger Moreira constrói um português propositalmente “errado” para espelhar um país que tropeça na própria imagem. A canção chegou a ser barrada pela censura no período final da ditadura militar, justamente porque seus versos foram interpretados como ofensivos aos chamados “interesses nacionais”. O que era humor se revelou ameaça — e isso diz muito sobre o contexto em que surgiu.

Com o avanço das Diretas Já, “Inútil” deixou de ser apenas uma faixa de rock irreverente e passou a circular como canção de mobilização, ecoando num Brasil que pedia o direito elementar de escolher o próprio destino. A música encontrou seu lugar não só nas rádios, mas nas ruas — e ali ganhou um novo significado: deixou de ser apenas crítica para se tornar também denúncia.

Por isso, em anos de Copa do Mundo e de eleição presidencial, a canção retorna com força quase profética. Ela não serve apenas para rir do Brasil; serve para encarar a nossa tendência de transformar crise em caricatura. “Inútil” continua atual porque o alvo dela não é apenas um governo específico, mas um padrão recorrente: a complacência, a memória curta, a dificuldade de transformar potencial em realidade.

Há algo de desconfortável nisso tudo. O Brasil é um país de talento evidente — na cultura, no esporte, na criatividade —, mas que frequentemente falha em converter essa potência em maturidade política e responsabilidade coletiva. A crítica de “Inútil” permanece porque ela não depende de um momento histórico específico; ela expõe uma estrutura de comportamento que se repete.

Talvez seja esse o motivo de a música ainda soar tão viva. Ela não envelhece como uma moda; ela se renova como uma cobrança. O refrão parece debochado, mas a pergunta que fica é séria: até quando o Brasil vai continuar cantando a própria incapacidade, quando o problema nunca foi falta de capacidade — mas de consciência?

Fontes e bases

  • Correio Braziliense – Reportagem sobre a censura à música “Inútil” e o contexto político-cultural dos anos 1980.
  • Senado Federal do Brasil – Registro sobre músicas associadas ao movimento Diretas Já e seu papel cultural.
  • Discografia Brasileira – Informações sobre o álbum Nós Vamos Invadir Sua Praia e a discografia do Ultraje a Rigor.
  • A Ditadura Envergonhada – Contexto histórico sobre o período final da ditadura militar e a censura cultural no Brasil.
  • História do Brasil Contemporâneo – Base teórica para compreensão do movimento Diretas Já e da redemocratização.

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