No vídeo do Programa do Jô, Ariano Suassuna conta, com seu humor ácido e sua inteligência cortante, uma cena aparentemente banal: a pergunta sobre quem já foi à Disneylândia. Mas o que poderia ser apenas conversa casual revela algo mais profundo — quase uma divisão simbólica do mundo entre aqueles que “foram” e aqueles que “não foram”. Como se essa experiência funcionasse como um selo invisível de importância, uma espécie de credencial de pertencimento a um imaginário de sucesso.

A força dessa fala está justamente naquilo que ela desmascara: a transformação de um símbolo da cultura de consumo em critério de valor humano. A Walt Disney World deixa de ser apenas um destino turístico e passa a ocupar o lugar de marco existencial. E é aí que a crítica de Ariano se torna filosófica. Porque, quando uma sociedade começa a medir a vida a partir de experiências padronizadas, importadas e espetacularizadas, ela inevitavelmente empobrece sua própria noção de sentido.

O que está em jogo não é o parque, mas o olhar. Não é a viagem, mas o valor que se atribui a ela. Ariano percebe, com lucidez, que há uma inversão silenciosa em curso: aquilo que deveria ser acessório se torna essencial; aquilo que deveria ser vivido com leveza passa a carregar o peso de uma validação social. E assim, pouco a pouco, o indivíduo deixa de buscar aquilo que o forma — conhecimento, sensibilidade, consciência — para perseguir aquilo que o legitima aos olhos de fora.

Há, nessa crítica, uma denúncia mais profunda: a de uma espécie de colonização simbólica. Não se trata mais de dominação política ou econômica, mas de algo mais sutil e talvez mais perigoso — a internalização de critérios alheios como se fossem próprios. Quando alguém acredita que sua vida ganha valor por ter tocado um ícone global, mas não reconhece a riqueza da própria cultura, algo essencial foi perdido. Não é apenas uma questão de gosto; é uma questão de identidade.

Por isso, a provocação de Ariano permanece tão atual. Em um mundo cada vez mais orientado por imagens, experiências vendáveis e validação externa, ele nos convida a uma pergunta incômoda: o que realmente transforma uma vida? O que pode, de fato, ser chamado de divisor de águas? Certamente não é o consumo de um espetáculo, por mais encantador que ele seja, mas a capacidade de desenvolver um olhar próprio sobre o mundo — um olhar que não depende de vitrines para existir.

No fim, a crítica de Ariano Suassuna não é contra a Disneylândia. É contra a ideia de que precisamos dela para nos sentirmos completos. E talvez seja justamente aí que reside sua maior força: lembrar que uma vida não se mede pelos lugares que visitamos, mas pela profundidade com que somos capazes de habitar aquilo que somos.

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