A distinção entre vontade permissiva e vontade soberana procura expressar, em linguagem teológica, a relação entre a santidade de Deus e sua providência absoluta. Deus, em sua vontade moral, não aprova o mal, o pecado ou a injustiça; contudo, em sua vontade soberana, Ele permite que tais eventos ocorram dentro dos limites de sua providência, ordenando-os, sem ser o autor do mal, para o cumprimento de seus propósitos eternos. Assim, aquilo que Deus permite não corresponde necessariamente ao que Ele deseja em termos de preceito, mas jamais escapa ao seu governo decretivo.

Essa tensão é visível nas Escrituras. Em Gênesis 50:20, o mal intentado pelos irmãos de José não é atribuído à vontade moral de Deus, mas é reinterpretado à luz da providência: “intentastes o mal… porém Deus o tornou em bem”. O mesmo padrão aparece na crucificação: um ato injusto e pecaminoso, realizado por mãos humanas, mas simultaneamente “determinado desígnio e presciência de Deus” (Atos 2:23). Aqui, o mal não é aprovado, mas é incluído no plano redentor. Portanto, a permissão divina não implica aprovação moral, e a soberania divina não é anulada pela liberdade humana.

Desse modo, pode-se afirmar que Deus não aprova tudo o que permite, pois sua vontade moral permanece santa e contrária ao mal; contudo, nada do que Ele permite foge ao seu governo, pois sua vontade soberana conduz a história ao fim que Ele decretou. Essa compreensão preserva, ao mesmo tempo, a santidade de Deus, a responsabilidade humana e a certeza de que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que são chamados segundo o seu propósito.

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