O embaraço de ser gente

Deixem-nos sozinhos, sem um livro, que não demora para que nos atrapalhemos, para que nos percamos, para que não saibamos a que aderir… Até para ser gente nos sentimos oprimidos; gente com corpo e sangue próprios e de verdade;

Dostoiévski, Memórias do Subsolo

Quando li essa passagem, senti uma espécie de reconhecimento doloroso — como se alguém tivesse apontado uma vergonha que eu já carregava sem nome. Não é tanto contra a leitura; é contra a preguiça íntima que transforma a vida em manual. Preferimos a receita porque ela nos poupa o embaraço de errar, de tropeçar, de descobrir que aquilo que amamos hoje pode nos envergonhar amanhã.

Falo por mim: já escolhi opinião pronta para não ter de explicar o contorno incômodo das minhas dúvidas. Já compartilhei frases que me cabiam bem na rede porque eram mais fáceis de vestir do que pensar. E fui percebendo que, ao trocar o risco de sentir pela segurança do script, a vida ficou mais clara — e mais rala.

O que há de mais duro nessa frase é a ideia de que ser “gente com corpo e sangue” é, de algum modo, um peso vergonhoso. Isso me atingiu porque ser inteiro exige exposição: querer alguém sem justificativa teórica, admitir um erro que não cabe num post, ficar sem resposta diante de um conhecido que sofre. Não há manual para isso. Há constrangimento, silêncio, talvez arrependimento — e, se tivermos sorte, pequenos acertos.

Por isso tenho tentado duas coisas simples e concretas: a primeira, adiar a reação automática — deixar a mão parada antes de clicar em “compartilhar indignação”; a segunda, praticar decisões pequenas sem consultar um padrão (ir por outra rua, recusar um conselho por sentir que não serve). São exercícios pobres em audiência, ricos em respiração.

Talvez a liberdade a que Dostoiévski aponta não seja um voo heroico, mas esta sucessão repetida de erros e recomeços. Aceitar o embaraço como parte da honestidade — isso me parece um bom começo.

“A autonomia se aprende errando; o manual dá forma, não dá espessura.”

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