Há uma geração que conheceu o mundo digital antes de ele se tornar silencioso, instantâneo e invisível. Uma geração que ouviu o grito metálico do modem, que esperou a meia-noite para não gastar pulsos telefônicos e que descobriu que, por trás de uma tela preta com letras verdes, existia um universo inteiro esperando para ser explorado.

Hoje, quando carregamos a internet no bolso e deslizamos o dedo sobre telas luminosas, é fácil esquecer que nem sempre foi assim. Houve um tempo em que se conectar era um ritual: fios atravessando a casa, disquetes sendo inseridos com cuidado e comandos digitados quase como feitiços no teclado.

O capítulo a seguir é uma viagem a esse tempo estranho e fascinante — quando estávamos conectados antes mesmo de entender completamente o que era estar conectado.

Boa leitura.

Capítulo 13 – Conectados Antes da Conexão

Antes da internet ser um rio correndo na palma da mão, ela era um deserto. E mesmo assim, a gente cavava poço.

Nosso primeiro contato com um computador foi graças ao nosso tio, aquele que mais tarde ganharia o apelido de Tio do Sobrado (embora, na época, nem houvesse sobrado nem apelido). Ele trabalhava na fábrica da Coca-Cola e um dia, num gesto que parecia trivial, mas que hoje carrega um brilho de iniciação, nos levou ao seu trabalho. Lá, na sala com cheiro de papel carbono e refrigerante doce, havia um 386. Um trambolho fascinante, sem mouse, sem janelas, sem som – mas com um teclado que parecia o painel de uma nave espacial.

Ali jogamos, ou pelo menos tentamos. O jogo era um clone do Enduro, aquela corrida pixelada do Atari, mas piorado por um gráfico de guerra fria. Para jogar, precisávamos inserir um disquete 8 (polegadas). Isso mesmo, caro leitor do século XXI. Um disquete. Uma caixinha quadrada que carregava no seu estômago magnético a esperança de diversão por alguns minutos. Parecia mágica: inseríamos o disquete, digitávamos comandos indecifráveis no DOS e esperávamos que o jogo rodasse. Às vezes, rodava. Às vezes, travava. Sempre era um evento.

Depois, chegou um IBM PC na casa do meu primo, mas era inútil: a tomada não encaixava, o sistema parecia russo e ninguém nunca viu aquilo funcionar. Era um totem. A gente ligava, ouvia um barulho robótico, via um monte de letras brancas na tela preta e desligava, frustrado.

Mais tarde, o mesmo tio montou um computador em casa. A máquina era nossa. O problema era a internet.

Ah, a internet! Um bicho selvagem, complicado, barulhento e caro. Primeiro, não havia wi-fi. A internet nascia no telefone fixo, aquele que morava na parede da cozinha, enquanto o computador estava enclausurado no quarto do meu primo. Ligávamos um fio longo, que serpenteava pela casa como uma extensão do nosso desejo de conexão. Quando conectávamos, o telefone morria. Ninguém podia ligar, ninguém podia atender. Era como invocar um espírito: fazia-se silêncio, preparava-se o ritual e esperava-se o barulho da conexão – um chiado metálico, um grito de modem, um lamento digital.

E tudo isso depois da meia-noite, porque antes disso a conta vinha como pecado escondido no envelope da conta telefônica. Depois da meia-noite, pagava-se um pulso único. Um selo de permissão. Entrávamos sorrateiros, olhos brilhando, como se estivéssemos invadindo o futuro.

Mas o que a gente fazia? Jogar? Impossível. Vídeos? Nem sonhar. Nossa diversão chamava-se mIRC. Um programa de bate-papo, ancestral dos aplicativos modernos. Entrávamos em salas de chat com nomes estranhos: #Mandrac, #GatinhodoFonseca, #Maria_Voce_Me_Mata, #Xyzywog ou #MickeyMouse. Ali, digitávamos tímidos “oi” esperando que alguém respondesse. Quando alguém respondia, era como um milagre. Puxávamos papo, inventávamos nomes, disfarçávamos nossas idades e esperávamos que dali saísse uma amizade, um flerte, um mistério.

Do mIRC migrávamos para o ICQ – que tinha aquele som inconfundível quando alguém entrava: “ô-ôh!”. Uma notificação que era puro entusiasmo. O ICQ nos deu a sensação de diálogo privado, de inbox antes do inbox existir. E mesmo com a internet caindo o tempo todo, mesmo com a dificuldade para reconectar, a gente persistia. Era como brincar de se perder e se encontrar nas vielas de uma cidade virtual.

Depois vieram os reinos mais estáveis: as salas do UOL, o MSN com seus nicks dramáticos e piscantes, o Skype. Até que, num certo ponto dos anos 2002, a internet a cabo chegou à nossa casa – como quem chega tarde a uma festa que já está divertida, mas ainda muda tudo.

Pela primeira vez, não precisávamos mais discar. A conexão estava lá, desde o momento em que o computador era ligado. Silenciosa. Rápida. Invisível. Era o paraíso digital. E mesmo assim, ainda sentíamos falta do barulho da conexão, da tensão do disquete, da poesia triste do “erro 404”.

Porque não era só sobre acessar o mundo.

Era sobre descobrir que ele também podia acessar a gente.

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