Do terreno em chamas à palavra que ficou — José Datrino, o Profeta Gentileza

Quando penso em como certas palavras conseguem atravessar tempos e cidades, volto sempre para uma imagem: um homem de túnica branca caminhando tranquilo entre trens, barcas e avenidas, oferecendo flores e repetindo uma máxima que todo mundo conhece — “Gentileza gera gentileza”. Para mim, a história de José Datrino não é só a biografia de um exótico pregador de rua; é a história de como uma cidade tenta costurar, com linguagem e gesto, seus próprios desdobramentos de dor.

Nasci ouvindo falar do incêndio do Gran Circus, e aprendi depois que foi exatamente ali — sobre as cinzas daquela tragédia de 1961 — que Datrino encontrou o que chamou de “chamado”. Segundo relatos consolidados, José Datrino nasceu em 11 de abril de 1917, viveu a vida de um trabalhador comum, e mudou-se para a região metropolitana. Depois do incêndio em Niterói, diz-se que ele ouviu vozes que o convenceram a abandonar a vida antiga. Levou um caminhão ao terreno carbonizado, plantou um jardim sobre as ruínas e passou alguns anos ali consolidando um gesto quase sacramental: cultivar vida em cima do que havia queimado.

A partir desse gesto nasceu o Profeta Gentileza. Ele adotou roupas brancas, encurtou ou rompeu laços familiares, e começou a percorrer o Rio de Janeiro com estandartes, frases e um vocabulário próprio — mistura de crítica social, religiosidade popular e apelo moral. Não era um intelectual da academia; era um homem da rua que transformou a caligrafia em ação pública. Ele pintou mensagens por onde passou, mas o seu grande livro de pedra foi um trecho urbano específico: as pilastras do Viaduto do Gasômetro (Caju) — cerca de 56 pilastras que, pintadas em verde e amarelo, exibiam suas máximas, críticas ao que chamava de “capeta-capital” e apelos à bondade. Essas pinturas se tornaram, com o tempo, um ponto de referência simbólica — um manifesto escrito em concreto.

O que me interessa é a ambivalência do impacto: Gentileza foi acolhido como profeta por muitos e visto como excêntrico por outros. Havia quem o ridicularizasse; havia quem lhe pedisse bênção. Para além dos rótulos, ele plantou uma provocação ética muito simples: e se a cidade tivesse um pouco mais de cuidado com o outro? A frase curta — “Gentileza gera gentileza” — funciona como um comando prático. A força da frase está em sua simplicidade: não resolve a desigualdade estrutural, mas propõe um princípio de convivência que pode, nas pequenas ações, fazer diferença.

A permanência da obra de Datrino é também narrativa de conservação e luta: os murais sofreram depredações, passaram por restaurações, foram reconhecidos como patrimônio cultural em diferentes instâncias e alimentaram debates sobre o uso do espaço público. Sua morte, em 29 de maio de 1996, não encerrou seu trabalho — suas palavras continuam afixadas na cidade, em reproduções, músicas, livros e campanhas. O Profeta Gentileza ocupa, hoje, um lugar ambíguo entre arte urbana, memória popular e patrimônio cívico.

Fecho com uma imagem que sempre me comove: lá onde a cidade poderia responder à violência com esqueletos de indiferença, um homem respondeu com florezinhas, tinta e palavras. Isso não é redenção fácil; é um gesto que nos convida a olhar — não só para o passado — mas para o modo como tratamos o outro no presente. E se eu pudesse resumir o que Gentileza nos deixa, diria: a gentileza não é ingenuidade; é prática coletiva, pequena e necessária.

Filmes, documentários e reportagens

  • Gentileza — Dado Amaral & Vinicius Reis (documentário/curta). Foco na vida e nas pinturas do Profeta; bom para depoimentos e imagens dos murais. (Porta Curtas / festivais de curta).
  • Reportagens especiais (TV Globo / Globo Cidadania e GloboNews) — segmentos que reconstroem a trajetória de Gentileza, com imagens de arquivo e entrevistas. Úteis para extrair trechos curtos com os devidos créditos.
  • Matérias e perfis em revistas e jornais (O Globo, Jornal do Brasil, Folha) — levantamentos biográficos e entrevistas com pesquisadores — boas fontes para citações textuais e checagem de datas.
  • Acervos fotográficos (Arquivo Nacional, Acervo O Globo, Wikimedia Commons) — fonte direta de imagens históricas do Profeta, úteis para ilustrações com créditos e legendas.

Fontes

  • Acervo Fotográfico — Arquivo Nacional / Agência O Globo — fotografias de José Datrino e das pilastras. (Consultar banco de imagens e licenças).
  • Entrevistas e depoimentos orais — coleções em acervos universitários (por exemplo, LABHOI / UFF) e reportagens de época (jornais e programas de TV). Procure nas hemerotecas da UFF e em arquivos de televisão.
  • WIKIPÉDIA — verbete “Profeta Gentileza” — bom ponto inicial para bibliografia básica e referências (verificar e complementar).
  • Dado Amaral — material do documentário Gentileza e texto de apoio (site do diretor / catálogo de curtas).
  • Artigos acadêmicos e capítulos de livros que tratam da obra como fenômeno urbano (ex.: estudos em memória urbana, arte pública e patrimônio cultural). Procure em repositórios como SciELO, Google Scholar e teses de pós-graduação (UFF, UFRJ).
  • Reportagens históricas (O Globo, Jornal do Brasil, GGN) — perfis e matérias que fazem a ponte entre o incêndio do Gran Circus e a trajetória de Datrino.

Deixe um comentário