Nunca esqueci a imagem que me pegou desprevenido: um circo — promessa de festa para crianças, cheiro de pipoca, vozes de anúncio — transformado em uma massa de fumaça, lona em chamas, e um chão cheio de sapatos e silêncio. É uma daquelas histórias que chegam à cidade como uma ferida aberta, e que a cidade carrega depois como um nó na memória coletiva. Falo aqui do incêndio que ocorreu em 17 de dezembro de 1961, no Gran Circus Norte-Americano, em Niterói — um desastre que deixou oficialmente 503 mortos e centenas de feridos, e mudou para sempre a história da cidade.
A tenda do circo havia sido armada na área central conhecida como Praça do Expedicionário, junto à Avenida Feliciano Sodré — um lugar de fácil acesso que atraiu milhares naquele domingo. Ao que consta nas investigações e relatos de época, o fogo não foi um acidente: foi provocado por terceiros, num ato criminoso que se transformou num massacre por causa da própria estrutura do espetáculo — lona altamente inflamável, público lotado e poucas saídas que pudessem comportar a pressa e o pânico. Em minutos o que era alegria virou pânico e horror.
Ler as reportagens e ver as fotos de época é doloroso. Há imagens que registram a rapidez com que a lona se consumiu e outras que mostram os esforços de socorro improvisados — hospitais recebendo corpos, voluntários resgatando sobreviventes, a cidade em estado de choque. As memórias orais coletadas por pesquisadores da UFF, e o arquivo fotográfico preservado em acervos jornalísticos, documentam o que os números sozinhos não dizem: o rosto das famílias, a fila dos enterros, a confusão dos primeiros socorros.
Dizer que foi “apenas” uma tragédia não basta; é preciso entender as camadas que a tornaram possível: as condições de trabalho dos circuitos de espetáculo itinerante, a impunidade e a violência social da época, e a precariedade das normas de segurança. Também é preciso lembrar que, entre as vítimas, havia muitas crianças — e que isso cristalizou na memória coletiva uma dor que as palavras têm dificuldade de abarcar.
Para Niterói, o incêndio deixou marcas materiais e simbólicas. O terreno do circo e as ruas próximas passaram a fazer parte de um mapa de luto. Alguns dias depois, sobre as cinzas, surgiram gestos de consolação — quem plantou flores, quem cavou um canteiro, quem se ajoelhou em oração. E dessa necessidade de consolo brotou, alguns anos depois, uma presença singular nas ruas do Rio: um homem que plantou palavras e murais com a máxima que todos conhecemos hoje — “Gentileza gera gentileza”. Mas essa é outra história que conto no próximo texto; aqui, preciso fechar lembrando o essencial — que a tragédia do Gran Circus é uma página escura da nossa história, e que ela exige memória, investigação e respeito às vítimas.
Fontes
- Acervo O Globo — galeria de fotos do incêndio do Gran Circus (fotos de 17/12/1961). (Acervo O Globo)
- LABHOI / UFF — Coleção “O incêndio do Gran Circus Norte-Americano” — fotografias, áudios e entrevistas orais recolhidas pelo laboratório (coleção e arquivos sonoros). (Labhoi)
- KNAUSS, Paulo. “O Incêndio do Gran Circus Norte-Americano” — análise histórica (Revista Brasileira de História / SciELO). Fornece contexto social e interpretação historiográfica. (SciELO)
- Reportagem de O Globo (comemorativa e acervo) — levantamento de fotos e texto sobre a dimensão do desastre (2013). (Acervo O Globo)
- OFOS — texto de síntese jornalística sobre o incêndio: cronologia, suspeitos (ato criminoso) e repercussões; bom para detalhes narrativos (use com cautela e verifique trechos primários). (Site da OFOS)
- DADO AMARAL (site e documentário Gentileza) — registros audiovisuais e biografia audiovisual sobre José Datrino. (Dado Amaral)
- Canal Curta / Porta Curtas — fichas e sinopses do documentário Gentileza (para consulta e eventual reprodução de trechos com crédito). (Tamanduá)
Vídeos e Fotos












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